Secretaria Especial da Cultura

Lei de Incentivo à Cultura

Teatro

Projeto no RS desenvolve cultura e integra pessoas com deficiência

Financiada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, entidade gaúcha oferece oficinas gratuitas de dança, teatro e música a cerca de 80 crianças e jovens de baixa renda

publicado: 15/03/2019 16h47,
última modificação: 15/03/2019 16h51

O endereço é a Praça Marechal Deodoro, no Centro Histórico de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O local é o Teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa. Os mais de 500 lugares estão ocupados. Na plateia, pais, irmãos, amigos e demais espectadores ansiavam pela apresentação. No palco, com e sem máscaras, 77 jovens deram seu melhor desempenho, mostrando o que aprenderam ao longo do ano no espetáculo “Todo Mundo tem um sonho — A Arte de Pertencer”, que misturou circo, dança, música e teatro. Aquela terça, 27 de novembro de 2018, foi o divisor de águas na vida de muitos daqueles jovens. Todos têm algum tipo de deficiência intelectual ou física e são atendidos em oficinas artísticas gratuitas no Instituto Social Pertence, no bairro do Partenon, na capital gaúcha.

Essa memória ainda permanece viva não apenas nos participantes, mas nas famílias e no cotidiano daqueles que vivenciaram aquele momento. Ao visitar o espaço do Pertence em um dia comum de oficinas, é possível, sem esforço, observar a alegria de adultos, jovens e crianças de poder encontrar os colegas, cantar, tocar instrumentos e representar.

“Isso foi um divisor de águas na vida da minha filha. Ela tem só 14 anos. Mas ela é muito introspectiva, quietinha, muito meiga e, com a ‘Arte de Pertencer’, ela se transformou em outra menina. Está se superando cada dia mais”, conta, emocionada, a dona de casa Ida Maria Silva das Neves, mãe da Ana Carolina.

Aninha, como é chamada, participa das oficinas de música uma vez por semana no instituto e integrou o grupo de jovens e adultos que participou da única apresentação do espetáculo no ano passado. Em 2019, ela continua a frequentar o espaço e faz parte de um grupo de cerca de 80 jovens que realiza atividades gratuitas no local, que é um clube feito especialmente para atender pessoas com deficiência.

“Hoje em dia, o Pertence, como um todo, tem mais ou menos 200 jovens. Duzentas famílias. Quando eu falo em jovens, (eu quero dizer) crianças, adolescentes e adultos. A gente os divide por faixa etária e por nível de comprometimento porque acredita que os jovens têm que estar nos grupos onde possam crescer”, explica um dos fundadores do Instituto Social Pertence, Victor Daniel Freiberg.

Há cinco anos, Freiberg, ao lado da também educadora Sara Zinger, começou, além do clube, a proporcionar oficinas para este público com alguma deficiência que tinha muita dificuldade de socialização. Eles oferecem oficinas de dança, teatro, música, capoeira, culinária, esportes e artes marciais e realizam passeios e viagens com os jovens.

“As oficinas de dança, teatro e música sempre foram o carro-chefe do Pertence. A gente acredita muito que, a partir dessas oficinas, o jovem começa a crescer. Ele aprende a conviver em grupo e a gente também começa a ver que tem muitos talentos aqui dentro”, destaca o educador. “A gente não trabalha com as dificuldades. A gente trabalha com as habilidades. Então, é muito legal ver como cada um consegue, dentro da sua limitação ou dentro das suas habilidades, a entregar o máximo de si”, complementa.

Quem reconhece isso é Ida, a mãe de Aninha. “Ela mudou para a melhor. Está com mais autonomia, mais independência. Mais regrada, com mais noção do espaço, do tempo”, comemora.

“(Realizar o espetáculo) Foi muito inspirador nas nossas vidas. E, para a cidade, foi também um exemplo de superação e de capacidade de seres humanos potentes, dando o seu melhor”, afirma a atriz Paula Carvalho, que dirigiu o espetáculo.

Para Julia Borba, de 40 anos, que atuou na peça, se apresentar em público a fez vencer medos e realizar performances circenses. “Os ensaios foram bem puxados. Eu superei os medos que tinha de fazer uns totens (posições estáticas de circo em cima de outros colegas)”, relembra.

Lidar melhor com a timidez foi apontado como um dos resultados positivos das oficinas. “Quando eu fui ensaiando, fui ganhando mais confiança, perdendo a timidez. Ainda sou tímido, mas estou perdendo aos poucos. Faço teatro e isso fez eu me soltar mais”, diz Felipe Costa, de 23 anos, que começou no meio do ano passado nas aulas de teatro e dança.

Camila Olivella, de 33 anos, ressalta que a participação nas oficinas rendeu mais do que esperava. “Eu gosto de teatro e das aulas de dança. Aqui, eu aprendi a cultivar meus amigos. Encontro com eles, sábado sim, sábado, não”, conta.

Já Thiago de Souza, de 20 anos, destaca o que mudou na vida dele. “Comecei a fazer teatro e dança para perder a timidez e porque eu acho que é uma coisa muito bacana. Gostei muito de ter conhecido gente nova. Foi uma experiência muito nova e fantástica para mim. Eu levo o carinho que tem aqui e bondade que as pessoas aqui têm e alguns ensinamentos novos”.

Como tudo começou

Não apenas aprimorar comportamentos, mas integrar pessoas com deficiência à sociedade foi um trabalho iniciado com muito cuidado, há quase 20 anos, pela sócia do Pertence, Sara Zinger. Ela conta que o chamado partiu do pedido da mãe de uma adolescente. Logo se somou a ela mais uma meia dúzia de jovens e, quando de um grupo passou para dois, percebeu que precisaria não apenas de ajuda, mas organizar e profissionalizar o atendimento a esses jovens.

“Quando eu comecei, minha filha era uma adolescente, frequentava algumas casas noturnas, se enfeitava, ia fazer o cabelo e maquiagem. Tudo para se preparar para a noite e eu percebi que os meus (alunos) não faziam isso com a mesma idade da minha filha. Eu percebi que eles só tinham vida social na família. Os amigos do pai eram amigos deles. Os amigos da mãe era os amigos delas. Não tinham como encontrar outros amigos. Não tinham onde procurar. Aí eu resolvi colocá-los no meu carro e sair. Fiz o primeiro grupo, o segundo grupo. Eles começaram a ter para quem telefonar, para quem convidar para o aniversário. Enfim, um grupo social”, recorda Sara.

Para os fundadores do Pertence, a ideia do espaço é proporcionar a esses jovens uma vida social longe do convívio familiar, de forma autônoma, observando, é claro, as necessidades especiais que incluem uma logística de cuidadores, de motorista, segurança, monitores, para que os pais fiquem tranquilos e os jovens possam aproveitar.

“Eu percebi que eles tinham vontade de mais. Não só vontade. Eles tinham vontade e direito de ter mais”, complementa Sara.

Incentivo

No entanto, até então, as ações do Clube Social Pertence eram particulares. Foi por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura que o Pertence conseguiu oferecer oficinas gratuitas para cerca de 80 jovens do Rio Grande do Sul. O recurso também viabilizou a apresentação do espetáculo Arte de Pertencer, com entrada franca, no final de 2018.

“O projeto do espetáculo foi um misto de várias idades, de vários tipos de deficiência, várias potências. Usando cada potencialidade para que todos pudessem participar”, indica a produtora executiva do projeto, Geniane Pereira.

Eles obtiveram da Secretaria Especial da Cultura a aprovação para captação de recursos para a segunda etapa do projeto. Já captaram R$ 109.250,00 dos R$ 409,7 mil aprovados. “Nosso maior desafio agora é captação de recursos para que a gente possa garantir a continuidade deste projeto de 2019”, complementa Geniane.

Em 2019, mais duas apresentações gratuitas do espetáculo Todo Mundo tem um sonho — A Arte de Pertencer estão previstas para os dias 22 e 23 de maio, no mesmo teatro, o Dante Barone, para escolas de alunos com necessidades especiais.

Interessados em apoiar e obter mais informações sobre instituto podem entrar em contato pelo e-mail: institutosocialpertence@gmail.com.

Acompanhe no site da Secretaria Especial da Cultura e em suas redes sociais este e outros casos de ações bem-sucedidas do uso da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

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